Notas sobre publicação e palestra de Antônio Paulo Cavalcante: Ordem e Desordem: Arquitetura e Vida Social


Por Juan Diego Maia


Na ocasião do evento GIS Day 2013 – As geotecnologias como ferramentas de cidadania, que ocorreu no dia 5 de dezembro no Campus do Pici da UFC, foi ministrada palestra do professor e pesquisador Antônio Paulo de Hollanda Cavalcante acerca de sua pesquisa de pós-graduação pela Unb intitulada “A Arquitetura da cidade e os congestionamentos” publicada no capítulo 5 do livro Ordem & Desordem: Arquitetura & Vida Social (org. Frederico de Hollanda).

Antônio Paulo inicia a exposição descrevendo sua formação acadêmica que combina as áreas de Arquitetura e Urbanismo e Engenharia de Transportes e segue levantando a problemática em estudo, no caso, os congestionamentos. O problema é frequentemente anunciado como uma simples tensão entre a escassez de espaço para circulação de veículos e o crescente aumento quantitativo destes, gerando daí o esgotamento em diversos pontos da rede viária. Segundo o autor, embora não se reduzam a essa visão simplista, as interpretações do analista de tráfego e do planejador urbano em relação a malha viária ainda se mostram limitadas. Por um lado, o analista parte da informação da demanda para focar na fluidez, concentrando-se em aspectos de caráter operacional e dinâmico como velocidade dos veículos, tempo de viagem etc, desconsiderando traçado, forma e organização da malha. Por outro lado, o planejador concentra esforços na estratificação dos usos no espaço, por vezes recorrendo ao conceito de zoneamento, associando o funcionamento da cidade a aspectos estáticos.

Em relação aos congestionamentos, a visão dominante corresponde a dos analistas dos órgãos gerenciadores de tráfego, sistematizada, no caso da cidade de Fortaleza, na metodologia conhecida como Modelo 4 Etapas (ou UTMS).

Modelo 4 Etapas (CAVALCANTE, 2012. p.101)
A metodologia consiste em 3 fases gerais: INPUT (insumos), Computacional e OUTPUT (saída). Na primeira, faz-se uma analise do sistema de transportes, além da simulação de um cenário a partir do qual são aferidos indicadores como o Nível de Serviço, medida de qualidade do tráfego apresentada num espectro de A a F (sendo A melhor qualidade do tráfego).

Na fase computacional, processa-se o modelo de demanda, no qual são aferidas quantas viagens , para onde se destinam e por qual modal de transporte ocorrem. Daí é obtida a previsão do número de viagens entre cada par de zonas  por cada modal em função dos custos de viagens entre as zonas.  Segue-se o processamento do chamado modelo de oferta, em que ocorre a alocação do tráfego, identificando por quais rotas ocorrem as viagens.

Por último, obtém-se na Saída (OUTPUT), uma série de mapas temáticos e planilhas apresentando modelos de alocação de tráfego, sendo escolhido o mais adequado após a comparação com os dados reais de volume disponibilizado pelo SCOOT (aplicativo que gerencia em tempo real os semáforos da cidade). Esse modelo “mais adequado” é eleito então como válido para o controle de mobilidade.

Antônio Paulo tece uma série de críticas ao referido modelo, apontadas como limitações metodológicas. O caráter sequencial e linear na disposição das etapas, funcionando como que separadas, o tempo e os custos financeiros despendidos com o processamento desses dados, além da requisição de alto nível de especialização dos analistas são algumas das limitações operacionais do M4E apontadas pelo autor. Por outro lado, o modelo “ignora fatores econômicos e populacionais , uso do solo, valores sociais e comunitarios”, além das implicações da configuração da cidade nos fluxos e dos pólos geradores de tráfego ¹ (PGVs) durante a etapa de alocação.

É especialmente focado nesses dois últimos pontos que o autor propõe uma nova metodologia de análise do tráfego, que contemple a influência do desenho urbano, dos atratores e do uso e ocupação do solo sobre a problemática dos congestionamentos, aspectos antes desconsiderados ou tratados superficialmente nos modelos tradicionais. A demonstração da aplicabilidade dessas novas variáveis se dá no estudo de caso realizado com a cidade de Fortaleza, que tem início na identificação dos eixos viários estruturantes da malha, bem como da escolha de uma área específica, chamada Área Crítica (AC), que corresponde a região inscrita no primeiro anel viário, evidenciando-se já de antemão o caráter radial concêntrico da malha. 

Aspectos do Ciclo de Eventos e Efeitos nos Congestionamentos. (CAVALCANTE, 2012. p.104)
Após o aproveitamento de material cedido pela Autarquia Municipal de Trânsito (AMC) no que diz respeito a análise de demanda de tráfego,o autor dá seguimento à análise da oferta, tomando partido dos conceitos da Teoria da Sintaxe Espacial ² (S.E.), a partir dos quais serão aplicadas as variáveis relacionadas a forma e a configuração da malha urbana. Entre as variáveis escolhidas constam Integração, Profundidade, Escolha, Conectividade e Interseções (ver conceitos no link sobre S.E).

A partir da medida de Integração da S.E. foi obtido um mapa de macroacessibilidade da cidade de Fortaleza que têm rebatimento no mapa de saturação de tráfego, além de ter possibilitado a informação de percursos a partir da configuração, confirmando o chamado efeito primário (influência da forma sobre o movimento).

Outra verificação interessante foi o aferimento de alta conectividade nos bairros Fátima, Meireles, Aldeota entre outros nas imediações da Área Crítica de Congestionamentos, além de bairros como Sapiranga e Manibura, situados no já conhecido eixo sudeste de expansão urbana. A alta conexão entre vias nessas áreas favorece os fluxos e consequentemente a disputa por espaço.

Em termos quantitativos, foi obtido na correlação entre conectividade e congestionamentos na Área Crítica um coeficiente de veracidade de 77%, e numa escala maior, da correlação entre profundidade média e congestionamento na Av. Barão de Studart (inscrita na AC)  obteve-se coeficiente de veracidade de 97%, em ambos os casos sendo confirmada a relação entre parâmetros da configuração da malha e congestionamentos.

Visando a associação do aspecto de atratores aos estudos de demanda e oferta, Cavalcante obtém, por meio de coleta de campo, as informações sobre uso e ocupação do solo em 27 vias mais congestionadas no perímetro da Área Crítica obtendo, com auxilio do software TransCAD, mapas que identificam os PGVs (seguindo a codificação da Lei de Uso e Ocupação do Solo).
Polos geradores e vias congestionadas (CAVALCANTE, 2012. p.110)

A partir da análise dos atratores verificou-se, ao contrário do que descrevem os órgãos gestores, o aumento das taxas de ocupação e índice de aproveitamento nos lotes de PGVs, que atraem grande volume de pessoas e favorecem os congestionamentos, embora tais índices não determinem quantitativamente o número de veículos alocados em estacionamentos, espaços públicos e nas margens dos lotes, número esse que têm impacto direto na possibilidade de transtornos de tráfego.

Em termos quantitativos, observou-se na análise de atratores, uso e ocupação da Área Crítica, que 18% dos veículos estacionados em areas públicas e nos lotes relacionam-se com Comércio Varejista, atividade que não requer grandes áreas para impactar negativamente o trânsito, dada a sua alta rotatividade. Viu-se também que 8% dos veículos nas referidas circunstâncias estão relacionados a Serviços de Saúde e Institucionais.

O autor conclui retomando a incapacidade dos modelos tradicionais de alocação de trafego em identificar as contribuições da forma, uso e ocupação do solo no fenômeno dos congestionamentos, bem como a necessidade de se aplicar a Teoria da Sintaxe Espacial em ambiente SIG como ferramenta de atualização e complementação das antigas técnicas nos orgãos de controle de tráfego, otimizando a previsão de transtornos e embasando futuros planos de intervenção.

No fim da palestra, questionei sobre se os agentes políticos têm tomado conhecimento de pesquisas dessa natureza e caso sim, especialmente no caso de Fortaleza, como reagiram aos resultados, já que estes propõem um rompimento de paradigma em relação às antigas metodologias dos orgãos encarregados. Antônio Paulo respondeu que recentemente houve um feedback da Prefeitura de Fortaleza no sentido de dialogar a possibilidade de aplicação da pesquisa no gerenciamento municipal de tráfego.


BIBLIOGRAFIA

¹ REDE PGV. O que é um PGV. 

² SABOYA, Renato. Sintaxe Espacial. 

HOLANDA, Frederico.  Ordem & Desordem: Arquitetura & Vida Social. In: CAVALCANTE, Antônio P. Hollanda. A arquitetura da cidade e os congestionamentos.

CARMO, Cássio. RAIA, Archimedes. NOGUEIRA, Adriana. Aplicações da Sintaxe Espacial no planejamento da mobilidade urbana.

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